Dances with the Dragons: até onde vale a pena lutar pelo que acreditamos ser certo?
Dances with the Dragons (título original Saredo Tsumibito wa Ryū to Odoru) é um anime de 2018 da Seven Arcs Pictures, baseado na light novel de Labo Asai. A história acontece na cidade fronteiriça de Eridana, onde humanos aprenderam a manipular fórmulas chamadas jushiki, um sistema que reproduz fenômenos naturais e concede poderes quase mágicos a quem domina a técnica. Gayus e Gigina, dois praticantes de jushiki, sobrevivem resolvendo problemas e cobrando recompensas nesse cenário.
O que torna a série interessante não é só a estética de fantasia sombria. É que a paz entre humanos e dragões, o pano de fundo de tudo que acontece em Eridana, não nasceu de reconciliação. Nasceu de um tratado. E tratado, na prática, costuma significar que alguém decidiu que o custo de continuar a guerra era pior que o custo de aceitar uma convivência desconfortável.
Um tratado não é um acordo entre iguais em paz
Um tratado de paz entre duas espécies que quase se destruíram mutuamente carrega, embutida, uma pergunta incômoda: paz para quem, e a que preço. Dances with the Dragons usa esse desconforto como base narrativa em vez de escondê-lo atrás de uma trégua confortável.
É nesse contexto que Mordin Orjes Gyunei aparece como uma das figuras mais reveladoras da série: um político de alto escalão dedicado a manter a paz entre humanos e dragões, disposto a usar métodos pragmáticos e implacáveis para isso. Mordin não finge acreditar em harmonia genuína entre as duas espécies. Ele acredita em manter a estrutura de pé, e trata qualquer coisa que ameace essa estrutura, inclusive vidas individuais, como um problema a ser resolvido, não uma tragédia a ser evitada a qualquer custo.
O outro lado da mesma pergunta
Do outro lado dessa lógica está Nidvolk, uma dragoa que assume forma humana e passa a matar praticantes de jushiki pela cidade, motivada pela morte de seu companheiro. Do ponto de vista da estrutura que Mordin protege, Nidvolk é uma ameaça a ser neutralizada. Do ponto de vista dela, ela está fazendo exatamente o que qualquer um faria diante de uma perda daquele tamanho: buscando alguma forma de resposta para algo que não tem conserto.
A série não resolve isso apontando um lado como claramente certo. Mordin acredita estar protegendo milhares de vidas ao sacrificar a complexidade moral de casos individuais. Nidvolk acredita estar corrigindo uma injustiça que ninguém mais parece dispensado a corrigir por ela. Os dois estão, à sua maneira, lutando pelo que consideram certo. E os dois causam dano real fazendo isso.
Até onde vale a pena ir
A pergunta que fica depois de acompanhar essas duas trajetórias não é “quem tinha razão”. É até onde alguém deveria ir defendendo aquilo que considera certo, quando essa defesa passa a exigir sacrificar outras pessoas, outros valores, ou a própria ideia de que existe uma linha que não deveria ser cruzada.
Mordin cruza essa linha em nome da estabilidade. Nidvolk cruza a mesma linha em nome do luto. Nenhum dos dois parece se ver como vilão da própria história, e talvez seja exatamente por isso que a série incomoda: fica difícil desenhar heróis e vilões com convicção quando as duas pontas do conflito partem de uma lógica interna que, isolada, até faz sentido.
Fica a impressão de que “lutar pelo que é certo” só funciona como bússola moral enquanto ninguém pergunta certo segundo quem, e até onde essa certeza autoriza alguém a ir.