Nem toda decisão precisa ser definitiva

Tem uma forma de falar sobre decisão que trata qualquer escolha como se fosse definitiva por natureza. “Vou decidir isso” soa quase como assinar um contrato vitalício, mesmo quando a decisão em questão é trocar de ferramenta, de abordagem ou de rotina, coisa que dá para desfazer sem drama nenhum se não funcionar.

O peso vem da palavra, não da decisão em si

Boa parte das decisões do dia a dia, principalmente no trabalho, não são irreversíveis. Trocar de linguagem num projeto pequeno, mudar de metodologia, adotar uma ferramenta nova: quase tudo isso pode ser revertido se não der certo, com algum custo, mas revertido. O problema é que a linguagem usada para falar sobre essas escolhas normalmente não reflete isso. “Decidimos usar X” soa permanente mesmo quando X pode ser trocado depois sem que o mundo acabe.

Essa diferença entre o peso da palavra e o peso real da escolha é onde boa parte da paralisia decisória mora. Quando uma decisão parece definitiva, ela naturalmente exige mais certeza antes de ser tomada, mais análise, mais gente concordando, mais tempo gasto adiando porque errar parece caro demais. Quando a mesma decisão é encarada como um experimento reversível, o cálculo muda inteiro.

Tratar como experimento não é indecisão

Existe uma diferença importante entre não decidir e decidir com a expectativa clara de revisar depois. A primeira é evitar o problema. A segunda é uma forma de decisão tão válida quanto qualquer outra, só que com um critério explícito de quando reavaliar, em vez da suposição implícita de que a escolha inicial precisa estar certa para sempre.

Um jeito conhecido de separar isso, popularizado por Jeff Bezos em carta a acionistas da Amazon, chama decisões difíceis ou impossíveis de reverter de “portas de mão única”, e decisões reversíveis de “portas de mão dupla”. O erro comum é tratar quase toda decisão como se fosse do primeiro tipo, mesmo quando a maioria, na prática, é do segundo.

O medo geralmente é sobre a palavra “errado”, não sobre a decisão

Parte do peso vem de outra confusão: tratar “essa decisão não funcionou” como sinônimo de “eu errei”, como se toda escolha devesse ter sido perfeita desde o início para ser válida. Uma decisão tomada com a informação disponível naquele momento, revista depois com informação nova, não é um erro. É o processo funcionando como deveria. O problema só aparece quando a decisão inicial é tratada como precisando estar certa para sempre, em vez de certa o suficiente para aquele momento, com espaço reservado para ajuste.

Reversível não é sinônimo de descartável

Isso não é defesa de decidir qualquer coisa sem pensar, só porque “sempre dá para mudar depois”. Existe diferença entre revisar uma decisão com base em informação nova e trocar de rumo por impulso a cada obstáculo pequeno. A diferença está em ter um critério: o que precisaria acontecer para essa escolha ser revista, o que é diferente de qualquer desconforto passageiro do início, que quase toda decisão nova carrega.

A decisão mais pesada nem sempre é a mais importante

Tratar toda escolha como definitiva não deixa ninguém mais cauteloso de verdade. Deixa mais devagar, mais adiado, gastando energia numa quantidade de decisões que, se fossem encaradas pelo que realmente são, poderiam ter sido tomadas rápido, testadas, e ajustadas depois se fosse o caso. Nem toda decisão precisa ser definitiva. A maioria, na verdade, não é.