O personagem mais forte raramente é o mais interessante

Existe um tipo de personagem que resolve qualquer conflito num golpe só, sem esforço, sem dúvida, sem risco real de perder. Isso deveria ser empolgante. Na prática, costuma ser o contrário: assistir alguém invencível resolver tudo sem esforço fica entediante rápido, porque tensão depende de alguma chance real de as coisas darem errado.

Saitama é o exemplo mais literal desse problema

One Punch Man constrói a piada central em cima exatamente disso: Saitama derrota qualquer inimigo com um único soco, sem exceção, e o anime usa essa força absoluta como fonte de comédia e de melancolia ao mesmo tempo. A luta nunca é o ponto de tensão de um episódio com Saitama em cena, porque o resultado já é conhecido de antemão. O que sustenta o interesse não é se ele vai vencer, é a frustração dele por não encontrar desafio nenhum, o tédio de ser bom demais numa coisa a ponto de essa coisa perder o sentido.

Isso é uma escolha de roteiro inteligente, não um acidente: o anime sabe que onipotência sem risco é narrativamente vazia, e transforma esse vazio no próprio tema, em vez de fingir que cada luta tem uma tensão que estruturalmente não pode existir.

Personagens ao redor de Saitama carregam o peso dramático que ele não pode carregar

Genos, o discípulo ciborgue que segue Saitama, ainda tem algo a perder: força que não é suficiente, adversário que pode realmente feri-lo, motivação pessoal com consequência real caso ele falhe. É Genos, e não Saitama, quem produz a maior parte da tensão de luta genuína na série, justamente porque ele ainda pode perder alguma coisa.

Mob Psycho 100 inverte a fórmula, do mesmo criador

ONE, o mesmo autor de One Punch Man, escreveu Mob Psycho 100 com uma lógica parecida, aplicada de um jeito diferente. Mob tem poder psíquico capaz de destruir praticamente qualquer oponente, mas a série constrói tensão em torno de outra coisa: a decisão dele de não usar esse poder, o medo de quem ele se torna quando perde o controle emocional. O risco não desaparece por ele ser poderoso, ele só muda de lugar, do resultado da luta para o custo emocional de vencer daquele jeito.

Reigen, o mentor fraudulento de Mob, sem poder nenhum, quase sempre puxa mais atenção do público do que o próprio protagonista onipotente. Ele precisa resolver problema com blefe, leitura de situação e sorte, porque é só isso que ele tem, e essa limitação é exatamente o que o torna imprevisível de acompanhar.

O padrão por trás dos dois exemplos

Nos dois animes, o personagem mais forte tecnicamente não é onde a tensão real mora. Ela migra para quem ainda tem algo em jogo: o discípulo que pode ser ferido, o mentor sem poder nenhum blefando para sobreviver, o próprio protagonista tentando não perder o controle sobre uma força que ele não usa por escolha, não por limitação.

Força sem consequência é só um número

Poder ilimitado sem custo, sem risco de derrota, sem consequência para quem o possui, tende a esvaziar justamente o que sustenta uma boa cena de conflito. A força de um personagem interessa menos do que o que essa força custa para ser usada, e é nesse custo, quase sempre carregado por quem está ao redor do personagem mais forte, que a história continua encontrando motivo para prender atenção.