Todo mundo quer IA no meu código. Eu só quero saber por quê.

Em algum momento do começo de 2026, ficou difícil abrir o LinkedIn sem encontrar alguém anunciando que colocou IA em alguma parte do produto.

Chatbot, agente, resumo automático, assistente, copilot. Às vezes resolvendo um problema real. Às vezes resolvendo um problema que aparentemente só passou a existir depois que alguém decidiu que precisava colocar IA em algum lugar.

Eu não tenho exatamente uma resistência a isso. Uso ferramentas de IA no meu próprio código e, em algumas tarefas, elas realmente me poupam tempo ou me ajudam a pensar em coisas que eu não tinha considerado.

O que me deixa curiosa é outra coisa: em que momento a pergunta deixou de ser “qual problema estamos tentando resolver?” e virou “onde dá para colocar IA aqui?”.

Dá para separar hype de utilidade?

Acho que dá. Pelo menos até certo ponto.

A pergunta que mais faz sentido para mim é simples: o problema que a IA está resolvendo existia antes de alguém decidir que precisava de IA?

Se já existia e a solução anterior era limitada, cara, difícil de manter ou simplesmente ruim, investigar uma abordagem com IA pode fazer bastante sentido.

Agora, se precisamos primeiro inventar uma justificativa para depois encaixar IA nela, talvez o problema esteja em outro lugar.

Não é uma regra científica. É só um filtro razoavelmente eficiente para não transformar toda novidade tecnológica em requisito de arquitetura.

Nem toda IA no código é IA no produto

Tem uma diferença que às vezes desaparece no meio da empolgação: usar IA para desenvolver software não é a mesma coisa que colocar IA dentro do software.

Eu posso usar um assistente para explorar uma API, revisar um trecho de código, gerar um teste ou discutir uma abordagem. Nesse caso, a IA está participando do meu processo de desenvolvimento.

Colocar um modelo no fluxo de uma aplicação é outra conversa.

A partir daí entram custo, latência, observabilidade, comportamento probabilístico, tratamento de falhas, dependência de fornecedor e a velha pergunta sobre quem vai manter aquilo depois.

Um autocomplete melhor e um agente tomando decisões dentro de um sistema podem aparecer na mesma conversa sobre “IA”, mas tecnicamente são problemas bem diferentes.

E acho que misturar tudo no mesmo pacote ajuda bastante o hype e bem pouco quem precisa tomar a decisão.

Às vezes uma função continua sendo uma ótima função

Tem problemas em que a flexibilidade de um modelo faz sentido. Texto livre, classificação menos previsível, extração de informação e situações em que escrever regras para todas as possibilidades seria um pequeno inferno particular.

Mas também existem problemas determinísticos.

Se a entrada é conhecida, a regra é conhecida e a saída esperada também, talvez o sistema não esteja pedindo um modelo. Talvez esteja pedindo uma função.

É menos emocionante para a apresentação, reconheço.

Isso não torna IA inútil. Só significa que “dá para fazer com IA” e “faz sentido fazer com IA” são duas frases diferentes.

Então por que tanta pressa?

Tenho a impressão de que parte dela vem de uma sensação difícil de ignorar em 2026: ninguém quer parecer que ficou para trás.

IA aparece em anúncio de produto, apresentação, ferramenta de desenvolvimento e discussão sobre o futuro do trabalho. É compreensível que exista vontade de experimentar.

Eu mesma estou experimentando.

O que não me convence é transformar experimentação em obrigação técnica. Testar uma ferramenta porque ela parece interessante é uma coisa. Projetar uma solução em torno dela antes de saber qual problema estamos resolvendo é outra.

E, talvez, seja justamente aí que eu fique mais cautelosa.

Onde eu realmente vejo valor

Não acho que a resposta seja fugir da tecnologia até o hype passar. Também não acho que seja colocar um modelo em cada endpoint e torcer para o futuro reconhecer nosso pioneirismo.

Para mim, IA funciona melhor como mais uma ferramenta na caixa.

Se economiza tempo, ajuda a explorar uma solução, lida melhor com um problema que realmente tem incerteza ou faz algo que seria muito difícil resolver de outra forma, ótimo. A tecnologia está fazendo trabalho de verdade.

Se a principal justificativa é poder dizer que o produto “tem IA”, provavelmente ainda falta uma conversa.

Não sei onde essa onda vai parar, e acho cedo demais para fingir que sei.

Algumas coisas que hoje parecem exagero podem acabar se tornando completamente normais. Outras provavelmente vão desaparecer assim que deixarem de ser novidade.

Enquanto isso, continuo usando IA no meu código sem nenhum drama.

Só quero que ela venha acompanhada de uma resposta convincente para uma pergunta muito menos futurista:

por quê?